No fluxo dos rios, como correntezas : olhares do ensaio de natureza brasileiro contemporâneo
Resumo
Resumo: Em um contexto de emergência climática, temáticas que por muito tempo foram marginalizadas passam a ocupar centralidades. O deslocamento do olhar e do interesse traz à tona novas leituras da floresta, dos povos originários, dos animais, dos rios – dos mais-que-humanos. Pela perspectiva da ecocrítica, esta pesquisa decolonial foca no ensaio que tematiza a natureza e vem sendo produzido no Brasil contemporâneo, especialmente a partir da primeira década do século 21. Assim, analisa produções lançadas após 2015, de autoria de quatro escritores de não ficção. Busca-se, por meio da teoria do ensaio, e recorrendo a vários autores, apresentar as características marcantes do gênero, a fim de apontar seus aspectos nos textos selecionados com uma abordagem de crítica literária ecológica. Dessa forma, evidenciam-se os pontos relacionados ao nature essay, chamado aqui de ensaio de natureza, que não possui tradição no Brasil e, portanto, geralmente não aparece com este rótulo – embora a tese aponte a existência de uma vertente brasileira, com diferentes possibilidades de olhar. Neste ponto, recorre-se à pesquisa de Simone Schröder (2019), entre outros pesquisadores. A constatação é que, localizados com os seus corpos humanos às margens de corpos de água, os ensaístas que compõem o corpus da pesquisa trazem a floresta, sobretudo a Amazônia, ao debate, afastando se de uma abordagem superficial, diante da necessidade de tratar assuntos e problemáticas relacionados ao Antropoceno e engajar leitores para a defesa da natureza. Pelos impactos da colonização, o posicionamento dos ensaios acaba sendo inevitavelmente engajado, com denúncias socioambientais e menos descrições da própria natureza. Além disso, repercutem vozes subalternizadas de humanos e mais-que-humanos. Assim, destacam-se quatro possibilidades de olhar: 1) o do viajante, a partir de Arrabalde: Em busca da Amazônia (2022, Companhia das Letras) de João Moreira Salles; 2) o da escritora que se refloresta e ganha novos parentes, tomando Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (2019, Arquipélago Editorial) e Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo (2021, Companhia das Letras) de Eliane Brum; 3) o do pesquisador que escuta, a partir de Vida e morte de uma baleia-minke no interior do Pará e outras histórias da Amazônia (Publication Studio, 2020) e Em Rota de Fuga: ensaios sobre escrita, medo e violência (Editora Hedra, 2020) de Fábio Zuker e 4) o do autor que sonha um futuro que é ancestral, Ailton Krenak, por meio da trilogia da Companhia das Letras A vida não é útil (2019), Ideias para adiar o fim do mundo (2019) e Futuro ancestral (2022) e de Um rio um pássaro (Dantes Editora, 2023). Na construção textual, esses escritores narram com fluidez, recorrendo a diferentes elementos para compor os textos que, apesar de marcados pela factualidade, carregam estilo e perenidade, com harmonia entre conteúdo e forma – ultrapassando o nível da descrição, passando pela introspecção e propondo reflexões. Conclui-se que, pela via ensaística, alguns autores conseguem evidenciar a urgência de tornar-se parente dos rios – que têm nome (Watu) e personalidade (banzeiro òkòtó) Abstract: In the context of climate emergency, long marginalized topics are now taking center stage. This shift in perspective brings forth new interpretations of the forest, Indigenous peoples, animals, and rivers – the more-than-human. From an ecocritical perspective, this decolonial research focuses on nature essays being produced in Brazil in the contemporary period, especially since the first decade of the 21st century. It analyzes works published after 2015 by four non-fiction writers. The aim is to present the salient characteristics of the essay genre, drawing on both essay theory and various authors, to highlight its aspects in the selected texts through an ecological literary criticism approach. In this way, the study emphasizes the nature essay, a genre referred to here as "ensaio de natureza", which lacks a formal tradition in Brazil and, consequently, does not typically appear under this label – although this thesis argues for the existence of a Brazilian strain with multiple perspectives. In this regard, the research draws on the work of Simone Schröder (2019) among other scholars. The finding is that these essayists, physically situated on the banks of water bodies, bring the forest – particularly the Amazon – into the debate, moving away from superficial approaches, driven by the need to address issues and problems related to the Anthropocene and to engage readers in the defense of nature. Because of the impacts of colonization, the essays inevitably end up being politically engaged, with socio-environmental denunciations replacing many descriptions of nature itself. Furthermore, they amplify the subalternized voices of both humans and more-than-humans. Four possible perspectives are highlighted: 1) the traveler's view, from João Moreira Salles’s Arrabalde: Em busca da Amazônia (2022); 2) the writer's view, as she "reforests herself and gains new kin", exemplified by Eliane Brum’s Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (2019) and Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo (2021); 3) the researcher’s listening perspective, drawn from Fábio Zuker’s Vida e morte de uma baleia-minke no interior do Pará e outras histórias da Amazônia (2020) and Em Rota de Fuga: ensaios sobre escrita, medo e violência (2020); and 4) the author’s dream of an ancestral future, represented by Ailton Krenak’s trilogy A vida não é útil (2019), Ideias para adiar o fim do mundo (2019), and Futuro ancestral (2022), as well as Um rio um pássaro (2023). In their textual construction, these writers narrate with fluidity, employing various elements to compose texts that, while factually grounded, possess distinct style and enduring quality, harmonizing content and form. They transcend mere description, incorporating introspection and proposing profound reflections. It is concluded that, through their essayistic approach, some authors effectively highlight the urgency of becoming kin with the rivers – which have names (Watu) and personalities (banzeiro òkòtó)
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