O sonhar como comportamento : uma interpretação analítico comportamental em diálogo com as teorias de simulação dos sonhos
Resumo
Resumo: O presente trabalho consiste em uma dissertação teórico-conceitual que analisa o sonhar à luz da Análise do Comportamento, em diálogo com teorias contemporâneas de simulação dos sonhos. Inicialmente, foi realizada uma revisão da literatura analítico-comportamental sobre o tema, reunindo interpretações skinnerianas – nas quais o sonhar é categorizado como comportamento perceptivo encoberto e frequentemente interpretado como ocasião de obtenção encoberta de reforçadores cuja obtenção estaria suprimida na vigília – e produções posteriores de analistas do comportamento, que em geral, apresentam delineamento clínico e discutem possíveis benefícios do uso de análises de sonhos na terapia comportamental. Em seguida, foram elaboradas leituras comportamentais das teorias contemporâneas de simulação dos sonhos e de seus fundamentos empíricos gerais, como ferramentas para identificar e discutir aspectos do sonhar que foram pouco explorados na literatura analítico-comportamental, interpretando-os em termos funcionais, compatíveis com o behaviorismo radical. Entre esses aspectos, destacam-se: a continuidade entre vigília e sonho quanto à natureza do responder e à forma das experiências relatadas; encadeamentos de respostas e o duplo papel do sonhador, com baixa discriminação de seu papel de produtor de estimulação perceptiva; possíveis funções de conteúdos aversivos e sociais nos sonhos; e a hipótese de que relações comportamentais estabelecidas durante o sono possam ter repercussões sobre a probabilidade e efetividade do responder na vigília. A partir dessas etapas, sugere-se que o sonhar envolve relações comportamentais complexas e multideterminadas e não se esgota em seus componentes perceptivos, podendo ser melhor entendido como contexto – comportar-se sob condições do sono – do que como uma única categoria de respostas definida por funções ou topografia específicas; defende-se que, ao se comportar durante o sono, o indivíduo pode ser modificado, assim como o é quando se comporta sob diferentes condições na vigília, com possíveis repercussões na probabilidade de responder na vida desperta, sem atribuir ao sonho estatuto de causa interna iniciadora. Por fim, discutem-se possibilidades adicionais de uso clínico de análises de sonhos e demarcam-se direções para investigação empírica do sonhar, considerando tanto delineamentos correlacionais quanto possibilidades de maior manipulação experimental das condições sob as quais o indivíduo sonha, ainda não exploradas por analistas do comportamento Abstract: The present work is a theoretical–conceptual dissertation that analyzes dreaming from the perspective of Behavior Analysis, in dialogue with contemporary dream simulation theories. First, a review of the behavior-analytic literature on the topic was conducted, bringing together Skinnerian interpretations – according to which dreaming is categorized as covert perceptual behavior and often interpreted as an occasion for covertly obtaining reinforcers that would be suppressed in waking life – and later productions by behavior analysts, which, in general, present a clinical focus and discuss potential benefits of using dream analysis in behavioral therapy. Next, behavior-analytic readings of contemporary dream simulation theories and of their general empirical foundations were developed as tools to identify and discuss aspects of dreaming that have been little explored in the behavior-analytic literature, interpreting them in functional terms compatible with radical behaviorism. Among these aspects are: continuity between wakefulness and dreaming with respect to the nature of responding and the form of reported experiences; response chains and the dreamer’s dual role, with low discrimination of their function as a producer of perceptual stimulation; possible functions of aversive and social contents in dreams; and the hypothesis that behavioral relations established during sleep may have repercussions for the probability and effectiveness of responding in waking life. Based on these steps, it is suggested that dreaming involves complex and multidetermined behavioral relations and is not exhausted by its perceptual components, and may be better understood as a context—behaving under sleep conditions—rather than as a single category of responses defined by specific functions or topographies. It is argued that, by behaving during sleep, individuals may be modified, as they are when behaving under different conditions in wakefulness, with possible repercussions for the probability of responding in waking life, without attributing to dreams the status of an initiating internal cause. Finally, additional possibilities for the clinical use of dream analysis are discussed, and directions are outlined for empirical investigation of dreaming, considering both correlational designs and possibilities for greater experimental manipulation of the conditions under which individuals dream, which have not yet been explored by behavior analysts
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