Impacto da pandemia de Covid-19 sobre o rastreamento, diagnóstico, tratamento, custos assistenciais e mortalidade por câncer de mama no Brasil : uma análise de séries temporais em diferentes contextos regionais, socioeconômicos e de desigualdade
Resumo
Resumo: A pandemia de COVID-19 comprometeu a organização da atenção ao câncer de mama, afetando o rastreamento, o diagnóstico, o tratamento e os custos assistenciais. No Brasil, ainda são escassas análises integradas que avaliem esses impactos ao longo da linha de cuidado, considerando diferenças entre os sistemas de saúde e variações na mortalidade. O objetivo desta tese foi analisar os impactos da pandemia de COVID-19 nas tendências de rastreamento, diagnóstico, tratamento, custos diretos e mortalidade por câncer de mama no Brasil. Trata-se de um estudo ecológico de séries temporais, baseado em dados secundários de livre acesso provenientes de sistemas oficiais do governo brasileiro, abrangendo o período de 2013 a 2023. Foram analisados dados de mulheres com 30 anos ou mais. As variáveis incluíram indicadores de rastreamento (mamografias), diagnóstico (biópsias e estadiamento), tratamento (internações, cirurgias e início do tratamento), mortalidade por câncer de mama como causa básica e como causa associada, além dos custos diretos relacionados ao rastreamento e à terapia sistêmica. As séries foram analisadas por meio de modelos de regressão com pontos de inflexão, variações percentuais anuais e semestrais, e técnicas de suavização para projeções. Em 2020, o impacto da pandemia no Sistema Único de Saúde (SUS) foi severo, com redução de aproximadamente 40% no número de mamografias em relação à média do triênio anterior (4,35 milhões para 2,57 milhões). A cobertura na faixa etária de 50–69 anos recuou de 12,16% para 6,95%. Embora as biópsias também tenham reduzido (–5,6%), a queda foi proporcionalmente menor do que a do rastreamento, elevando a razão biópsias/mamografias de 1,42% para 2,27%. Esse cenário interrompeu a tendência histórica de crescimento dos diagnósticos em estádios precoces (0–II), enquanto os estádios avançados (III–IV) mantiveram trajetória ascendente. Na assistência hospitalar, houve retração de 23,1% nas cirurgias oncológicas e de 10,5% nas internações. A tendência de atraso no início do tratamento (>60 dias), previamente estacionária, tornou-se mais pronunciada. Do ponto de vista econômico, os custos com mamografias reduziram-se de R$ 114 milhões para R$ 67 milhões, enquanto os gastos com terapia sistêmica para doença avançada aumentaram de R$ 437 milhões para R$ 465 milhões. Na mortalidade, observou-se redução de 3,9% nos registros como causa básica, em contraste com aumento de 50,9% nas menções como causa associada. Conclui-se que a pandemia de COVID-19 intensificou as desigualdades no cuidado do câncer de mama no Brasil, com queda no rastreamento e no diagnóstico precoce, aumento proporcional de casos avançados, atraso no início do tratamento e elevação dos custos com terapia sistêmica para casos avançados. Observou-se também aumento da mortalidade por câncer de mama como causa associada, com a COVID-19 como causa básica. Esses achados reforçam a necessidade de políticas públicas resilientes, orientadas à equidade, à continuidade do cuidado e à integração entre os sistemas em cenários de crise Abstract: The COVID-19 pandemic disrupted the organization of breast cancer care, affecting screening, diagnosis, treatment, and healthcare costs. In Brazil, integrated analyses assessing these impacts across the continuum of care—accounting for differences between health systems and variations in mortality—remain scarce. The objective of this thesis was to analyze the impacts of the COVID-19 pandemic on trends in screening, diagnosis, treatment, direct costs, and mortality from breast cancer in Brazil. This was an ecological time-series study based on openly accessible secondary data from official Brazilian government systems, covering the period from 2013 to 2023. Data from women aged 30 years or older were analyzed. Variables included indicators of screening (mammography), diagnosis (biopsies and staging), treatment (hospitalizations, surgeries, and initiation of treatment), breast cancer mortality as both underlying and associated causes of death, as well as direct costs related to screening and systemic therapy. Time series were analyzed using Regression models with inflection points, annual and semiannual percentage changes, and smoothing techniques for projections. In 2020, the impact of the pandemic on the Unified Health System (SUS) was severe, with an approximate 40% reduction in the number of mammograms compared with the mean of the previous three-year period (from 4.35 million to 2.57 million). Screening coverage among women aged 50–69 years declined from 12.16% to 6.95%. Although breast biopsies also decreased (–5.6%), this reduction was proportionally smaller than that observed for screening, increasing the biopsy-to-mammography ratio from 1.42% to 2.27%. This scenario interrupted the historical upward trend in diagnoses at early stages (0– II), while diagnoses at advanced stages (III–IV) continued to increase. In hospital care, there was a 23.1% reduction in oncologic breast surgeries and a 10.5% reduction in hospitalizations. The previously stationary trend in delayed treatment initiation (>60 days) became more pronounced. From an economic perspective, expenditures on mammography decreased from BRL 114 million to BRL 67 million, whereas spending on systemic therapy for advanced disease increased from BRL 437 million to BRL 465 million. Regarding mortality, a 3.9% reduction in records with breast cancer as the underlying cause was observed, contrasted with a 50.9% increase in mentions as an associated cause. It is concluded that the COVID-19 pandemic intensified inequalities in breast cancer care in Brazil, with reductions in screening and early diagnosis, a proportional increase in advanced cases, delays in treatment initiation, and rising costs related to systemic therapy for advanced disease. An increase in breast cancer mortality as an associated cause, with COVID19 as the underlying cause, was also observed. These findings reinforce the need for resilient public policies that prioritize equity, continuity of care, and integration among health systems in crisis scenarios
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