"Ninguém quer lutar o tempo inteiro, ninguém quer chorar o tempo todo" : aquilombamento de relações sociais subjetivadas por estudantes de psicologia na consubstancialidade raça, classe social e sexo gênero
Resumo
Resumo:A presente pesquisa de doutorado teve por objetivo investigar as configurações subjetivas de estudantes negros e negras LGBT+ de um curso de Psicologia em uma universidade pública do Sul do Brasil. Apoiou-se na perspectiva Histórico-cultural da Epistemologia Qualitativa, na Teoria da Subjetividade e na Metodologia Construtivo interpretativa do autor Fernando Luís González Rey. Participaram três estudantes de Psicologia que se autodeclararam negros(as) e LGBT+s. Foram realizados encontros individuais e um encontro coletivo utilizando a "dinâmica conversacional" e o desenho como instrumentos de expressão. Além disso, foi realizada pesquisa documental do PPC e ementas das disciplinas. A análise seguiu o método de construção da informação. A universidade foi mantida anônima para preservar a privacidade dos participantes. A partir Construção da Informação, construindo indicadores e hipóteses, as trajetórias de Simone (travesti não-binária, indígena, negra e pansexual), Nzinga (mulher preta, bissexual) e Frantz (homem preto, gay) evidenciaram as "relações sociais subjetivadas". Simone demonstrou desconforto com a invisibilidade da travestilidade no ambiente acadêmico, sentindo a necessidade de "desmantelar" e "recriar" a Psicologia, e percebendo o curso como elitista e "higienista", o que a levou à "solidão da travesti negra". Nzinga passou por um processo de "desalienação racial" tardio e doloroso, buscando leituras de autores negros para nomear suas vivências e compreender as dinâmicas raciais estruturais. Ela percebeu a inacessibilidade do amor romântico para mulheres negras e encontrou "saúde emocional" no convívio com suas tias negras, valorizando saberes que dispensam legitimação conceitual. Frantz expressa a militância como propósito de vida, impulsionado por violências raciais, enfatizando que "a cor sempre chega primeiro". Ele enfrentou desafios de classe (deslocamento, bolsas) e criticou a falta de representatividade e discussões sobre raça e sexualidade nas disciplinas, o que o motivou a cofundar o coletivo, um espaço fundamental de apoio e militância contra a inação institucional. O encontro coletivo reforçou a dificuldade de pessoas brancas em admitir o racismo e seus privilégios, a marginalização de saberes não-acadêmicos, e a solidão vivenciada por pessoas trans, travestis e negras, bem como a importância do "aquilombamento" como resistência. O conceito de "relações sociais subjetivadas" mostrou-se uma ferramenta analítica central para compreender como os sistemas de poder (raça, classe social e sexo gênero) se entrelaçam e constituem as subjetividades individuais e sociais dos participantes. A pesquisa demonstrou que o curso de Psicologia analisado é um cenário "branco", "elitista" e "cisheteronormativo", evidenciando fissuras em um sistema que se recusa a ser decolonial. Contudo, a pesquisa ressaltou a agência e resistência dos participantes: a subjetividade, com seu caráter gerador, produziu alternativas e subversões das normas, transformando o sofrimento em militância (Frantz), buscando desalienação e autolegitimação (Nzinga), e desejando "desmantelar e recriar" a própria ciência psicológica (Simone). O estudo valoriza a potência da subjetividade como agente de mudança, expressa em atos de "aquilombamento", que buscam transformar a realidade e forjar uma Psicologia que acolha a complexidade da existência humana em toda a sua diversidade. A pesquisa contribui para a Psicologia Histórico-cultural brasileira, oferecendo novas vias de inteligibilidade sobre a constituição da subjetividade em contextos de opressão e resistência. Abstract: This doctoral research aimed to investigate the subject configuration of black LGBT+ students on a Psychology course at a public university in southern Brazil. It leaned on the Historical-Cultural perspective from Qualitative Epistemology, with Theory of Subjectivity and the Constructive-Interpretative methodology from the author Fernando Luís González Rey. Three psychology students who self-identified as black and LGBT+ participated. Individual meetings and a collective one were held using "conversational dynamics" and drawing as instruments of expression. Additionally, document research was conducted on the PPC and course syllabi. The analysis followed the information construction method. The university's identity was kept anonymous to protect participants' privacy. From the Construction of Information, building indicators and hypotheses, the trajectories of Simone (non-binary, indigenous, black and pansexual transvestite), Nzinga (black and bisexual woman) and Frantz (black and gay man) highlighted the "subjectivized social relations". Simone expressed discomfort with the transvestite invisibility in the academic environment, feeling the need to "dismantle" and "recreate" psychology, and perceiving the course as elitist and "hygienist", that led her to the "loneliness of the black transvestite". Nzinga went through a late and painful process of "racial desalination", researching black authors to name her experiences and comprehend the structural racial dynamics. She noticed the inaccessibility of romantic love for black women and found "emotional health" in interactions with her black aunts, valuing knowledge that does not require conceptual legitimacy. Frantz expresses activism as a life purpose, fueled by racial violence, emphasizing that "color always comes first." He faced class challenges (displacement, scholarships) and criticized the lack of representation and discussions on race and sexuality in academic disciplines, which motivated him to co-found a collective, a crucial space for support and activism against institutional inaction. The collective reinforced the difficulty white people have in admitting their racism and privilege, the marginalization of non-academic knowledge and the loneliness experienced by trans, transvestites and black people, as well as the importance of black people sticking together as a form of resistance. The concept of "subjectivized social relations" has proven to be a central analytical tool for understanding how the systems of power (race, social class and sex-gender) intertwine and constitute the individual and social subjectivities of participants. The research demonstrated that the Psychology course analyzed is a "white", "elitist" and "cisheteronormative" scenario, showing fissures in a system that refuses to be decolonial. However, the research also highlighted the agency and resistance of the participants: subjectivity, with its generative character, produces alternatives and subversions of norms, transforming suffering into resistance (Frantz), seeking disalienation and self legitimation (Nzinga), and wishing to "dismantle and recreate" psychological science itself (Simone). The research values the power of subjectivity as an agent of change, expressed in acts of "marronage", that seek to transform reality and create a Psychology that embraces the complexity of human existence in all its diversity. The research contributes to Brazilian Historical-cultural Psychology, offering new avenues of intelligibility regarding the constitution of subjectivity in contexts of oppression and resistance.
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