Alegoria, ícone e violência : uma releitura da Caverna de Platão
Resumo
Resumo: Esta tese divide-se em dois momentos. O primeiro trata da uma longa busca por uma definição mais apropriada para a narrativa da caverna, apresentada no início do Livro VII da República, de Platão. Trabalhei com um conjunto de conceitos que, ao longo das Histórias das Filosofias, deu nome de batismo para aquele trecho: alegoria, mito, metáfora, translatio, metáfora alongada, enigma, hiponoia, imagem e ícone. Com o auxílio de gregos e latinos, além de uma bibliografia especializada, com destaque para a produção brasileira, apresentei um microcosmo de temas necessários para alcançar precisão nessa definição. Afinal, ao falar da caverna de Platão, é preciso enfrentar questões relativas à educação, à produção de imagens, à poesia e ao modo de filosofar que liga os antigos aos contemporâneos. Ao final dessa primeira parte, que compreende os dois primeiros capítulos, expus o conceito de "experimento imaginativo" como o nome e a prática evocada por Sócrates ao encorajar Glauco a imaginar uma cena. Somei também minha voz à de outros pesquisadores e pesquisadores que entendem a caverna de Platão como uma imagem de tipo especial, isto é, um ícone (eik?n). O segundo momento, desenvolvido no terceiro capítulo, consiste na aceitação do desafio feito por Sócrates: experimentar a imaginação, tomando como ponto de partida filosófico a possibilidade de olhar, com os olhos da alma, para aquela ambientação cavernícola. A intenção foi apropriar-me de uma imagem universalmente conhecida, de grande poder pedagógico e ampla capacidade de diálogo com diferentes públicos, e que, após esta tese, apresenta uma chance para expor outros princípios éticos e políticos que brotam da vida encarcerada. Para esse tipo de experimento, como deixar de considerar o contexto contemporâneo das vidas esquecidas, quando somos provocados por Platão a imaginar prisioneiros dentro de uma caverna, tão semelhantes como nós? Não se trata de afirmar que Platão imaginou um cárcere moderno, tampouco de desqualificar os usos que ele e a tradição de estudos platônicos pretenderam com o seu experimento imaginativo original, mas de apresentar uma leitura extemporânea da caverna que tenha a superação da violência como marca de um filosofar do cárcere. Assim, partindo da compreensão do experimento imaginativo, somei-me a uma longa tradição de pensadores e pensadoras que produziram novas imagens a partir do tempo presente e de suas ambições políticas e pedagógicas. No caso desta tese, a reelaboração de sentido da caverna ocorreu a partir das produções textuais dos privados de liberdade da Cadeia Municipal de União da Vitória, Paraná, e das memórias de ex-presos(as) torturados(as) por agentes estatais de variadas ditaduras ao longo do século XX. Ao final, ao acatar o desafio de Sócrates dirigido a Glauco, e alimentado pelos testemunhos mencionados, surgiu a imagem do(a) filósofo(a)-prisioneiro(a), e não a do filósofo-rei, bem como a proposta de uma filosofia do cárcere Abstract: This thesis is divided into two parts. The first part entails a lengthy search for a moreappropriate definition of the cave narrative presented at the beginning of Book VII ofPlato's Republic. I worked with a set of concepts that, throughout the history of philosophies,have been used to baptise that passage: allegory, myth, metaphor, translatio, extendedmetaphor, enigma, hyponoia, image, and icon. With the aid of Greek and Latin sources, aswell as specialised bibliography – with an emphasis on Brazilian scholarship – I presented amicrocosm of themes necessary to achieve precision in this definition. After all, whenspeaking of Plato's cave, one must confront questions relating to education, to the productionof images, poetry, and to the mode of philosophising that connects the ancients tocontemporaries. At the end of this first part, which comprises the first two chapters, I putforward the concept of "imaginative experiment" as the name and practice evoked by Socrateswhen he encourages Glaucon to imagine a scene. I also added my voice to those of otherresearchers who understand Plato's cave as a special type of image, that is, an icon (eik?n).The second part, developed in the third chapter, consists of accepting the challenge posed bySocrates: to experiment with the imagination, taking as a philosophical starting point thepossibility of looking, with the eyes of the soul, upon that cavernous setting. The intentionwas to appropriate a universally known image, of great pedagogical power and a broadcapacity for dialogue with different audiences, which, after this thesis, presents an opportunityto expose other ethical and political principles that spring from incarcerated life. For this typeof experiment, how can one avoid considering the contemporary context of forgotten liveswhen we are provoked by Plato to imagine prisoners (so similar to ourselves) in a cave? It isnot a matter of asserting that Plato imagined a modern prison, nor of disqualifying the usesthat he and the tradition of Platonic studies intended with his original imaginative experiment,but rather of presenting an extemporaneous reading of the cave which posits the overcomingof violence as the hallmark of a philosophy of the prison. Thus, starting from theunderstanding of the imaginative experiment, I joined a long tradition of thinkers who haveproduced new images from their present time and their political and pedagogical ambitions. Inthe case of this thesis, the re-elaboration of the cave's meaning occurred from the textualproductions of the inmates of the Municipal Prison of União da Vitória, Paraná, Brazil, andthe memories of former political prisoners tortured by state agents of various dictatorshipsthroughout the 20th century. In the end, by heeding the challenge of Socrates directed atGlaucon, and fuelled by the aforementioned testimonies, the image of the philosopherprisoner emerged, and not that of the philosopher-king, as well as the proposal for aphilosophy of the prison.
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- Teses [97]