"O mar interior africano" : análise do pensamento imperialista no projeto de criação do Mar Interior do Saara de François Élie Roudaire (1874–1885)
Resumo
Resumo: Esta dissertação analisa o Projeto do Mar Interior do Saara (1874–1885), do militar e geógrafo francês François Élie Roudaire, como expressão do pensamento imperialista do século XIX, abordando o contexto histórico, geográfico, intelectual e técnico que moldou sua formulação e recepção. A partir da leitura e análise do artigo Une Mer Intérieure en Algérie (1874) e do livro La Mer Intérieure Africaine (1883), o trabalho articula três eixos: (1) a influência do sansimonismo na imaginação e, posteriormente, formulação de projetos coloniais para alterar a paisagem e natureza do deserto do Saara; (2) os usos do passado clássico (como o mito da Baía de Tritão) como ferramenta de legitimação para a ideia de (re)criar um mar na região dos chotts; (3) a construção e apresentação de um megaprojeto com elementos utópicos, o qual gerou amplos debates quanto às suas expectativas e limitações práticas. Demonstra-se que o plano de Roudaire não se tratou apenas de um mecanismo para conter a expansão do deserto, mas sim de um instrumento do "domínio da paisagem", que conjuga elementos utópicos, crença no progresso científico, ideia de superioridade europeia, missão civilizadora e interesses coloniais. A recusa institucional do empreendimento foi resultado da junção de incertezas técnicas, custos exorbitantes e imprevisíveis consequências climáticas e ambientais. O falecimento de Roudaire em 1885 levaria o projeto ao esquecimento, sendo esporadicamente lembrado e servindo de inspiração para outros megaprojetos, como o caso de Qattara e Atlantropa. Ao integrar análise das obras de Roudaire com abordagens sobre imperialismo, sansimonismo e produção geográfica do período, a dissertação contribui para a historiografia do imperialismo do século XIX ao analisar como megaprojetos mobilizaram a ciência, usos do passado e relatos de viagens para os fins coloniais Abstract: This dissertation analyzes the Sahara Inland Sea Project (1874–1885), by French military officer and geographer François Élie Roudaire, as an expression of 19th-century imperialist thought, addressing the historical, geographic, intellectual, and technical context that shaped its formulation and reception. Based on the reading and analysis of the article Une Mer Intérieure en Algérie (1874) and the book La Mer Intérieure Africaine (1883), the work articulates three axes: (1) the influence of Saint-Simonianism on the imagination and, later, formulation of colonial projects to alter the landscape and nature of the Sahara Desert; (2) the uses of the classical past (such as the myth of Triton Bay) as a tool to legitimize the idea of (re)creating a sea in the Chotts region; (3) the construction and presentation of a megaproject with utopian elements, which generated broad debates regarding its expectations and practical limitations. It demonstrates that Roudaire's plan was not simply a mechanism to contain desert expansion, but rather an instrument of "landscape mastery," combining utopian elements, a belief in scientific progress, the idea of European superiority, a civilizing mission, and colonial interests. The institutional rejection of the project stemmed from a combination of technical uncertainties, exorbitant costs, and unpredictable climatic and environmental consequences. Roudaire's death in 1885 led to the project's oblivion, only to be sporadically remembered and serve as inspiration for other megaprojects, such as Qattara and Atlantropa. By integrating an analysis of Roudaire's works with approaches to imperialism, Saint-Simonism, and the period's geographic production, this dissertation contributes to the historiography of 19th-century imperialism by analyzing how megaprojects mobilized science, uses of the past, and travelogues for colonial purposes
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