Justiça informacional, aprendizagem digital e empoderamento no uso de tecnologias digitais por mulheres em vulnerabilidade
Resumo
Resumo: Esta pesquisa investiga como mulheres em situação de vulnerabilidade social, residentes no bairro Guaraituba, em Colombo (PR), acessam, utilizam e ressignificam as tecnologias da informação como instrumentos de aprendizagem, gestão da informação e enfrentamento à desinformação. Partindo da constatação de que 100% das participantes possuem acesso à internet, ainda que em condições de precariedade — uso exclusivo do celular, dependência de dados móveis e conectividade instável —, o estudo busca compreender como essas mulheres constroem práticas informacionais próprias em um cenário marcado por desigualdades de gênero, classe e território. A pesquisa examina como, apesar das limitações materiais e técnicas, as mulheres aprendem cotidianamente, sobretudo por meio de plataformas populares como WhatsApp (97%), Facebook (57%), YouTube (45%) e Instagram (45%). Elas mobilizam esses ambientes para resolver problemas práticos, cuidar da família, desenvolver habilidades, aprender novas tarefas, empreender e circular informações. A análise também evidencia que as práticas informacionais são fortemente mediadas por relações de confiança — família, vizinhas, amigas e grupos comunitários — configurando uma curadoria afetiva que fortalece vínculos, mas amplia vulnerabilidades à desinformação. Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem quanti-qualitativa. A etapa quantitativa envolveu a aplicação de um questionário a 100 mulheres do território, mapeando perfis sociodemográficos, padrões de uso, fontes de confiança, temas de interesse e percepções de empoderamento. A etapa qualitativa consistiu em uma roda de conversa com 16 mulheres da Comunidade Santa Terezinha, onde emergiram narrativas profundas sobre aprendizagem digital, cuidado, trabalho, espiritualidade e estratégias de sobrevivência informacional. A roda revelou que as mulheres não são usuárias passivas, mas agentes que adaptam, traduzem, compartilham e produzem conhecimento, transformando o digital em ferramenta de vida. Os resultados mostram que existe um empoderamento informacional em curso, porém desigual e incompleto. As mulheres demonstram forte desejo de aprender, elevada capacidade de resolver problemas e significativa agência cotidiana, mas enfrentam barreiras estruturais que limitam sua autonomia crítica: baixa escolaridade, falta de tempo, medo de golpes, dificuldade com plataformas formais, interfaces complexas e ausência de políticas públicas adequadas. Assim, a inclusão digital observada é intensa, porém frágil; presente, mas limitada; funcional, porém pouco crítica. A pesquisa contribui para compreender como a apropriação das tecnologias pode fortalecer a autonomia das mulheres, promover aprendizagem contínua e ampliar a cidadania informacional em territórios vulnerabilizados. Também oferece subsídios para políticas públicas de inclusão digital com enfoque territorial, linguístico e de gênero, destacando a necessidade de mediação comunitária, formação crítica e tecnologias acessíveis. Em síntese, o estudo reforça que a democratização da informação exige mais do que acesso: requer condições equitativas de uso, reconhecimento dos saberes periféricos e práticas de cuidado informacional Abstract: This research investigates how women living in conditions of social vulnerability in the Guaraituba neighborhood, in Colombo (Brazil), access, use, and reinterpret information technologies as instruments for learning, knowledge construction, and resistance to misinformation. Although all participants (100%) have internet access, this access is marked by precarious conditions—exclusive use of mobile phones, dependence on prepaid data packages, and unstable connectivity. The study examines how these women develop situated informational practices within a context shaped by structural inequalities of gender, class, and territory. Findings show that, despite material and technical constraints, participants engage in intense daily digital activity, primarily through WhatsApp (97%), Facebook (57%), YouTube (45%), and Instagram (45%). These platforms serve as spaces for problem-solving, family care, learning new skills, and sharing information. Informational practices are strongly mediated by affective trust networks—family members, neighbors, friends, and community groups—revealing a form of "affective curation" that both strengthens social bonds and increases vulnerability to misinformation. Methodologically, the study adopts a mixed-methods approach. The quantitative phase involved administering a semi-structured questionnaire to 100 women, mapping sociodemographic profiles, usage patterns, learning interests, confidence sources, and perceptions of empowerment. The qualitative phase consisted of a community conversation circle with 16 women from Santa Terezinha, where narratives about learning, caregiving, work, spirituality, fear, and agency emerged. The discussion circle revealed that these women are not passive users of technology but active interpreters and producers of knowledge who adapt, translate, and circulate digital content as part of their everyday lives. Results indicate the emergence of informational empowerment, although uneven and incomplete. Participants show a strong desire to learn, problem-solving capacity, and significant everyday agency, yet face persistent barriers that limit critical autonomy: limited schooling, time constraints, fear of digital fraud, difficulty navigating formal platforms, complex interfaces, and a lack of public policies. Thus, digital inclusion is present but fragile; functional but not fully critical; empowering, yet constrained by structural inequalities.The study contributes to understanding how technology appropriation can promote women’s autonomy, continuous learning, and informational citizenship in marginalized territories. It also provides insights for public policies aimed at digital inclusion with gender-sensitive and community-based approaches. Ultimately, the research demonstrates that democratizing information requires more than access: it requires equitable conditions of use, recognition of peripheral knowledge, and collective practices of informational care
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